O Caminho de Dentro

 

"Conhece-te a ti mesmo, e conhecerás os deuses e o universo." O Oráculo de Delfos

A conexão com o dentro começa ao nível físico, desenvolvendo consciência corporal. Aos poucos a respiração como ponte é acessada, e o fio de dentro, é tecido. O balanceamento do tônus muscular garante o equilíbrio das massas corpóreas na postura; cabeça, tórax e quadril se alinham e ganham um poderoso aliado contra a força gravitacional que achata as massas em direção ao chão: o alongamento axial. A partir daí a bailarina esvazia a mente para poder se encontrar ocupada integralmente de si, não no sentido egoísta de preencher expectativas de fora, mas sim de estar ativa, presente, podendo realmente responder ao fora com integridade, pois há um operante dentro, ativo e presente no corpo. Este é o exercício mais difícil, desenvolver e manter este operante interno, e não mais responder automaticamente com um corpo mecânico.

Se o Pilates e o Yoga podem ser praticados sem conexão com o dentro, a dança também está sujeita a ser praticada imitativamente, se encaixando em fôrmas e formas vindas de fora, de outros corpos, de padrões já aceitos e modismos. A pessoa que não desenvolve senso crítico e, paralelamente, uma conexão interna, nem vai perceber que isso ocorre. Mas ela sabe, lá no fundo, que a alma anseia por algo, ela sente falta do retorno ao próprio self, sente falta do caminho do dentro. Objetivamente, o que acontece quando esta pessoa dança é que o público sente que falta algo, a própria bailarina sabe que ainda não é plena de si, o público sente o vazio, ou, quando a bailarina preenche este vazio com excesso de técnica, o seu público fica perplexo com a complexidade de seus movimentos e com a habilidade em dominar o corpo, mas sabemos que dança não é (só) isso. O excesso de técnica faz parte de toda essa cultura do fora, do consumo, portanto, leva as massas atrás de si. O grande desafio é preencher a sua dança "de si" !!

A possibilidade de estarmos conectadas com outras pessoas que já não se iludem com esta cultura, mora justamente na honestidade e integridade que precisamos ter para sustentar esta nova cultura, criá-la. A cultura e cultivo do caminho do dentro. Consiste em integridade, autonomia, sinceridade, transparência e honestidade. E isso exige muito autoconhecimento e autoestima.

Procuramos encher a dança com nossa vida, e será que conseguimos olhar honestamente para nossas vidas a ponto de conseguirmos enxergar nossa dança, de verdade? A pessoa que cozinha, dirige, se relaciona, fala e trabalha é a mesma pessoa que dança. A dança reflete quem e o que eu sou, referente aos atos, intenção, gestos e qualidades de movimento que uso, na maior parte do tempo. Não há como disfarçar, ou ser diferente na dança, o corpo não mente. Está impregnado! Nela os padrões ficam claros, tudo aparece, e com lente de aumento. Por isso é pertinente aproveitar o cenário onde tudo aparece, o palco da vida e da dança, como que apontado por um microscópio, para fatos antes invisíveis a olho nu e que agora nos saltam os olhos, na dança, pelo corpo, como dispositivo de auto-conhecimento e transformação .

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